Talvez eu esteja precisando de uma sessão de terapia. Talvez não, com certeza.
Quem não precisa? Vivendo nessa loucura diária, vamos adoecendo aos poucos se não pararmos para cuidar de nós mesmos.
Precisamos disso. Parar. Respirar.
Com cada pessoa, a estratégia de autocuidado é única. O que funciona para mim talvez não ajude você.
Jogar bola tende a me fazer muito bem. Às vezes não: quando caio num time ruim ou jogo mal, acabo ficando tão estressado quanto antes. Faz parte.
Ler um livro do meu interesse é tiro certo. Viajo para bem longe, sinto emoções, aprendo e levanto com aquela sensação boa e leve de relaxamento e expansão. Como um balão de ar subindo para o céu.
Outra alternativa é escrever. Uma forma de dar vazão à energia psíquica reprimida (os psicanalistas sorriram) ou de simplesmente organizar os pensamentos.
E não é que está funcionando? Já estou me sentindo melhor.
Continuarei!
Como sou eu que estou aproveitando essa terapia, vou falar do que desejo (calma, psicanalistas, não é sobre isso…).
Futebol de Psicologia
Em 1997, nascia em Campinas… Não, muito longe. Vou começar por Bauru mesmo.
Cheguei na cidade do lanche em 2015 para morar sozinho e cursar Psicologia na UNESP.
Desde o 1º dia e a 1ª disciplina, eu tinha um objetivo bem claro e definido: tornar-me psicólogo do esporte para atuar no futebol.
Com esse objetivo em mente, decidi aproveitar cada oportunidade de trabalho com tema livre na faculdade para pesquisar sobre essa área de atuação, ainda relativamente nova no Brasil.
Logo encontrei os artigos da Katia Rubio, a bíblia do Gould e Weinberg, o Garry Martin, o Eduardo Cillo, a Carla di Pierro… E concluí que essa possibilidade de carreira tinha tudo para me realizar.
Eu gostava de estudar os conceitos e via as perspectivas de intervenção como desafios envolventes. Virei o “menino da psicologia do esporte” - o cara da sala que queria jogar psicologia com futebol.
O primeiro clube
“Peçam, e receberão. Procurem, e encontrarão. Batam, e a porta lhes será aberta. Pois todos que pedem, recebem. Todos que procuram, encontram. E, para todos que batem, a porta é aberta.” (Mateus 7:7-8)
Em 2016, no 2º ano do curso, eu e meu amigo, André Zacharias, estávamos entrevistando atletas de alto rendimento na cidade para um estudo de Metodologia Científica.
Surpreendentemente, em meio às idas e vindas das coletas de dados, fomos convidados pelo Everton Alemão para auxiliar a comissão técnica da base do EC Noroeste. Havia uma perspectiva de reestruturação no clube, visando o certificado de clube formador, e um consenso de que seria fundamental incluir a psicologia do esporte em todos os processos.
Fomos transbordando de dúvidas e expectativas para a primeira reunião. Tínhamos nada para oferecer, “apenas” o interesse e a total disposição em aplicar nosso melhor para aprender e ajudar no que fosse possível.
As conversas avançaram e, de repente, sob orientação do Prof. Dr. Jair Lopes, iniciamos um trabalho que perdurou por 2 anos (até 2018, quando houve mudanças na diretoria e suspensão do projeto na base).

Matéria do Jornal da Cidade, publicada em 30/08/2016.

Matéria do Jornal da Cidade, publicada em 30/08/2016.
“É isso…"
Essa foi minha primeira experiência de trabalho no futebol.
Também foi a primeira vez em que senti realização profissional.
Senti. Ou seja, sentimento. Uma percepção subjetiva.
O que é “realização profissional” e como medimos esse constructo?
A Psicologia ainda não possui uma resposta bem definida para essas perguntas.
O alinhamento do que se faz com as metas de carreira e vida, o grau de autonomia intelectual e criativa, o desafio, o senso de propósito, a transcendência… Vários elementos subjetivos se associam ao sentimento de realização.
Embora seja um conceito difícil de esclarecer, curiosamente, somos capaz de perceber, em algum grau, o quanto sentimos de realização num dado momento, exercendo uma dada atividade.
Você se sente realizado agora?
Participar da rotina de preparação, os treinos, os jogos, as reuniões com a comissão técnica… A vivência no clube foi me trazendo uma forte convicção: “é isso que eu quero fazer na minha vida”. Que sensação boa!
(E aqui, lembrando que estou na minha sessão de terapia, sou atravessado pela verdade: hoje, no meu trabalho principal como concursado no TJSP, estou distante dessa satisfação.
Todas as manhãs, levanto da cama, vou enfrentar as oito horas e, no final da tarde, saio de lá sem sentir a tal da realização.
Prosseguir na escrita fica difícil, doloroso. Dá vontade de ficar lá atrás, navegando pelas memórias mais felizes.
Sigo em frente ou paro por aqui?
Não, tenho que continuar.)
Sei que parte do deslumbre que senti no Noroeste foi pela novidade. Nunca havia vivenciado o futebol por dentro. No entanto, recordo-me de 2 anos vividos num entusiasmo inabalável. Prova de uma estabilidade nessa “realização”.
Enganei a minha esposa
Passaram-se os anos, graduei em Psicologia, fui aprovado no supramencionado certame público para o cargo de escrevente técnico judiciário, concluí alguns cursos famosinhos em Psicologia do Esporte e Psicologia do Futebol, trabalhei como motorista de aplicativo, visitei a base do Botafogo FR, trabalhei como analista de qualidade em uma empresa de telemarketing e casei com a Ana, o amor da minha vida, em maio de 2021 - essa foi uma baita Realização, com “r” maiúsculo"!

Como ela é linda! ❤️
No contrato do casamento, estava “marido aspirante a psicólogo do esporte”. Pois é… Como todos profetizam, o cônjuge muda. Comigo, não foi diferente.
Eu casei sendo psicólogo, almejando uma carreira como psicólogo no futebol.
Em julho, iniciei a especialização em Psicologia do Esporte na UFSCAR. Golaço!
No mesmo mês, assumi um cargo de psicólogo na OSC Wise Madness, para trabalhar em uma unidade com cerca de 200 crianças e adolescentes em vulnerabilidade social - uma missão admirável, merecedora de alguém muito mais qualificado e apaixonado pela psicologia social do que eu.
Em agosto, como se não bastasse essa dupla tarefa, arrumei uma terceira: o time de futsal da cidade. Entrei como voluntário para auxiliar na preparação psicológica da equipe.
E aí… Bom… O que acontece dentro de nós é tão eternamente complexo que nenhum mortal pode desvendar.
Essa combinação única de atuações e estudos mexeu comigo. Gradativamente, o psicólogo deixou de se enxergar como tal.
A disciplina sobre “treinamento esportivo” na pós-graduação de “Psicologia do Esporte” foi a que mais me cativou.
Liderando todos os dias uma singela equipe com quatro educadores sociais e participando da rotina de treinos e competições do time de futsal, comecei a flertar com a possibilidade (na minha imaginação) de cumprir tarefas e exercer um papel no futebol que, com CRP ativo, não cabia a mim.
Projetando mentalmente uma nova perspectiva de carreira, eu me descobri treinador.
Não por supostamente ter características inatas que me vocacionam para essa função.
E sim por identificação, alinhamento.
Depois de tanto tempo convicto de que trilharia uma jornada como psicólogo no futebol, o autoconhecimento advindo da experiência prática me revelou que a minha querida realização estaria em outra função (no mesmo contexto).
Com o apoio carinhoso da minha esposa - para ser justo - a rota foi ajustada.
Tornando-se treinador de futebol
Em 2023, comecei a minha segunda graduação na UNESP Bauru, agora em Educação Física.
Desde o 1º dia e a 1ª disciplina, com um objetivo bem claro e definido: tornar-me treinador de futebol.
O primeiro livro que li depois dessa adaptação de caminho foi o Pirâmide Invertida (a bíblia da tática do futebol).
Neste livro, dentre muita coisa interessantíssima, conheci um pouco da história do homem que não era cavalo. Um cara comum que decidiu se tornar treinador de futebol. Ele dizia que treinadores de cavalos não precisavam previamente ser cavalos para poder treiná-los.
Sem ter sido jogador de futebol, Arrigo Sachi se tornou um dos maiores treinadores italianos, conduzindo o Super Milan, marcando a história do clube com um futebol belo e vitorioso.
Há pouquíssimos exemplos como esse, mas para mim os existentes já servem o suficiente como inspiração. É comprovadamente factível.
Desde então, sigo estudando futebol com ainda mais garra e me experimentando na função sempre que possível.
Na UNESP, nos últimos 3 anos, dando aulas de futebol para crianças e adolescentes aos sábados, toquei de novo no sentimento de realização. Bom demais!
Pois bem… Pelo que me conheço hoje, minha meta seguirá trabalhar no futebol profissional.
É o que sinto que melhor combina com quem eu sou e o contexto para o qual tenho me preparado com determinação.
Sem saber como será nem como serei.
Eis a verdadeira aventura da vida: ter os passos dirigidos pelo Eterno enquanto se conhece nele.

Minha sessão terminou.
Leve e realizado.
Deixo aos pés de Jesus todo fardo que me pesa e recebo a paz que o mundo não pode oferecer:
“Não vivam preocupados com coisa alguma; em vez disso, orem a Deus pedindo aquilo de que precisam e agradecendo-lhe por tudo que ele já fez. Então vocês experimentarão a paz de Deus, que excede todo entendimento e que guardará seu coração e sua mente em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:6-7)
Grande abraço,
Victor Butzloff