Foto de @marcelo-aut-145487862 no Pexels: "Vista deslumbrante da entrada da República de Užupis com placas de rua icônicas na nevada Vilnius."
Em agosto de 1992, Simon Kuper esteve nos Países Bálticos para acompanhar os primeiros jogos eliminatórios de Copa do Mundo da região: Letônia x Lituânia e Estônia x Suiça.
Com exceção da Suiça, os três países estiveram sob domínio da Rússia, integrando a União Soviética até final de 1991.
Por isso, pela primeira vez, entrariam em campo como nações independentes em busca da classificação para uma Copa do Mundo (a de 1994 seria disputada nos Estados Unidos, com o Brasil sagrando-se tetracampeão).
Ler os relatos do autor 34 anos depois das suas experiências requer muito cuidado, afinal, obviamente, muito do que ele vivenciou mudou passado tanto tempo. Em 1992, o contexto era de reafirmação nacionalista e revanchismo contra os russos. Os três países haviam acabado de conquistar a independência e ansiavam pela consolidação do reconhecimento internacional.
Então, a reflexão deste capítulo é sobre questões que ultrapassam épocas.
Dessa experiência pontual de Simon Kuper nos Países Bálticos em 1992, quais reflexões atemporais surgem?
Em Vilnius, na Lituânia, o autor entrevistou Andrius Kubilius, secretário executivo do Sajudis, partido político que liderou a luta pela independência do país. A autoridade ressaltou o papel vital do esporte no processo de resistência e enfrentamento:
"Soccer and basketball games, said Kubilius, had been vital in the struggle for independence. Often, after Zalgiris Vilnius played a Russian team, the home fans would march from the stadium carrying torches and singing folk songs. In the center of town they would meet militiamen with batons - "bananas," the Lithuanians call them. These were virtually the only nationalist protests in the country until the late 1980s. Only when Gorbachev took power and people became freer to speak did sport cease to matter quite so much. "When Sajudis became strong, sport came in second place," Kubilius said. Until then, he explained, large numbers of Sovietic citizens could come together and shout what they pleased only at a sports match."
Os jogos de futebol e basquete, disse Kubilius, foram vitais na luta pela independência. Frequentemente, após o Žalgiris Vilnius jogar contra um time russo, os torcedores da casa marchavam do estádio carregando tochas e cantando canções tradicionais. No centro da cidade, eles encontravam milicianos com cassetetes — "bananas", como os lituanos os chamam. Praticamente esses eram os únicos protestos nacionalistas no país até o final dos anos 1980. Somente quando Gorbachev assumiu o poder e as pessoas ficaram mais livres para falar é que o esporte deixou de importar tanto. "Quando o Sajudis se fortaleceu, o esporte ficou em segundo plano", disse Kubilius. Até então, ele explicou, um grande número de cidadãos soviéticos conseguia se reunir e gritar o que quisesse apenas em uma partida esportiva.
Um dos aspectos que mais me incomodam no futebol é o excesso de liberdade para hostilidades. Em qualquer estádio ou campinho de bairro onde esteja acontecendo uma partida, haverá também torcedores xingando livremente. Quando não se agredindo fisicamente.
Parece que o ambiente esportivo se envolve de uma dimensão paralela da realidade, em que a moralidade e a civilidade convencionais da sociedade são suspensas temporariamente por uma força invisível. Os psicanalistas talvez expliquem dizendo que ocorre um enfraquecimento do superego, abrindo brechas para o efeito catártico de massa.
Seja qual for a justificativa, para mim custa aceitar como normal os episódios de descontrole ao redor de um jogo de futebol. Até em partidas de categorias de base vemos reações absurdas, adultos xingando crianças e treinadores esgoelando horrores. Pessoas transformadas em objetos de "descarga pulsional".
Está bem, mas o que isso tem a ver com a Lituânia?
À primeira vista, podemos classificar a sociedade da Lituânia nas décadas de 60 e 70 como mais reprimida do que sociedade brasileira atual. Afinal, os Países Bálticos estavam sob domínio da Rússia.
Mas será que o brasileiro de hoje é tão livre assim?
O Brasil é um país soberano, autônomo e independente?
Os brasileiros são verdadeiramente livres?
Na luta diária pela sobrevivência, debaixo de cargas tributárias altíssimas, jornada de trabalho extenuante, ausência de garantia de direitos mínimos, caminhando para demissões em massa por IA e renda básica universal...
Quando há um sistema que se retroalimenta da desigualdade social, com senhores servidores de Mamom ocupando os três poderes, em direção ao cumprimento do Apocalipse, não há muito o que se falar sobre liberdade.
A grande diferença do Brasil de hoje para a Lituânia da União Soviética talvez esteja na percepção. Em certo grau, aqueles lituanos sabiam que eram oprimidos e manipulados. Por aqui, a esmagadora maioria se acha livre e ainda acredita que a raiz dos nossos problemas (e também das soluções!?!?) estaria na direita ou na esquerda - Garry Allen e Larry Abraham muito bem documentaram o teatro deste jogo político da polarização, porém poucos têm interesse e paciência para ler...
Então, por que nos campos de futebol há espaço e tolerância para tanto extravasamento emocional?
Quem controlava a Lituânia sabia que essa era uma excelente estratégia para distrair as massas, aliviar o povo e prevenir retaliações.
Quem controla o Brasil hoje (e o mundo) também sabe.
Na sequência do capítulo (vou ficar só pela Lituânia para não me estender muito), Simon Kuper ressaltou o esforço dos lituanos na superação do desconhecimento do Ocidente a respeito de sua própria existência e como o esporte estava contribuindo para destacar o país no mapa mundial:
"Sport can help. Days before I arrived, Lithuania's basketball team had won the bronze medal at the Barcelona Olympics, thus earning more foreign TV coverage in a month than President Landsbergis had managed all year. Nerijus Maliukevicius of Lithuanian Weekly (published in English) told me he had had three foreign visitors in recent months: a journalist each from Newsweek and the San Francisco Chronicle, both come to ask about Lithuanian basketball, and me. 'Everyone comes here for sport', he concluded."
O esporte pode ajudar. Dias antes de eu chegar, a seleção de basquete da Lituânia havia conquistado a medalha de bronze nas Olimpíadas de Barcelona, conseguindo assim mais cobertura de TV estrangeira em um mês do que o presidente Landsbergis havia alcançado durante o ano todo. Nerijus Maliukevicius, do Lithuanian Weekly (publicado em inglês), me disse que teve três visitantes estrangeiros nos últimos meses: um jornalista do Newsweek e outro do San Francisco Chronicle, ambos para perguntar sobre o basquete lituano, e eu. "Todo mundo vem aqui pelo esporte", concluiu ele.
O esporte tem um potencial de conexão incrível, ainda mais quando vemos no jogo "gente como a gente". Somos atraídos por uma história de conquista e superação de um "improvável" porque isso nos faz acreditar e sentir que também podemos chegar lá. Criamos um vínculo emocional quase instantâneo com pessoas semelhantes a nós. Na República Dominicana, quando vi pessoas jogando futebol, ou quando descobri a escolinha na capital que leva o nome de Garrincha, imediatamente me senti mais dominicano e brasileiro, surpreso e feliz por ter parte da minha identidade representada numa terra tão distante.
De fato, esse grupo de atividades humanas, as esportivas, proporcionam uma identificação e um senso de pertencimento que rompem qualquer fronteira, atravessando e conectando diferentes culturas. Compartilhamos histórias, emoções, sensações, interesses, dificuldades e aspirações... Como "jogadores" espalhados pelo mundo inteiro porque jogamos o mesmo jogo.
Politicamente, portanto, o futebol torna-se uma ferramenta poderosíssima. Um instrumento de legitimação, governo, ideologização e coesão, que vez ou outra pode inclusive se voltar contra a força hegemônica.
Um jogo universal apaixonante, mas infelizmente carente de bons jogadores.
Referência
"Soccer Against the Enemy: How the World's Most Popular Sport Starts and Fuels Revolutions and Keeps Dictators in Power", "Chapter 4 - The Baltics want to be in America", de Simon Kuper (1994), 2ª edição (2006).
Por Victor Butzloff