Pelé disse: “O que eu ouvia me chateava tanto que eu ia lá e arrebentava o time adversário.”
O rei do futebol era alvo de ofensas racistas.
Numa época em que a psicologia do esporte engatinhava, pouco se treinava no âmbito das habilidades psicológicas. Imagine a raiva que ele sentia e a dificuldade que enfrentava para lidar com suas emoções.
Será que Pelé conseguia autorregular a raiva de modo eficaz?
Se sim, parte da sua alta performance tinha a dor do racismo como fonte de motivação.
Se não, sem estar desestabilizado emocionalmente, poderia ter jogado ainda mais e melhor.
Fica a dúvida.
Décadas se passaram, veio o futebol moderno, a análise de desempenho, a neurociência, a inteligência artificial e o crime continua ocorrendo em todos os continentes.
É impressionante como essa perversidade persiste. Bem que Jesus alertou: “o mundo jaz no maligno”.
Ainda que haja mais avanços nas Ciências do Esporte e na integração do treinamento mental às rotinas dos atletas de elite, eu suspeito que não tenha como se preparar totalmente para lidar com o racismo, tamanha sua perversidade.
O caso mais recente me deixou irado e me fez refletir o quanto esse recurso antijogo é inadmissível.
Ainda pela manhã, na terça-feira de 17/02/2026, data em que meu pai, Virgilio Modesto de Abreu, comemorou seu sexagésimo sétimo aniversário, comentei com a minha esposa: hoje tem um jogo que eu quero muito assistir - Benfica x Real Madri, pelo mata-mata da Champions League.
O contexto parecia promissor: o timaço do Real contra o “underdog” português comandado por José Mourinho, que havia vencido o próprio gigante espanhol por 4 a 2 na partida anterior pela competição.
Como geralmente me ocorre nesses jogos, acabei me inclinando para o lado do menos rico. Queria ver sim um espetáculo, mas de preferência com outra vitória do Benfica.
Nos programamos e, às 17h estávamos nós sentados para assistir ao jogo comendo pipoca.
Primeiro tempo bem disputado, jogo lá e cá, os portugueses chegando com perigo… Tudo se desenhava para um desfecho histórico.
Vem o segundo tempo e… Golaço do Vini! Uma pintura de classe. Impossível de não se admirar.
“Como será que o Benfica vai reagir? O Mourinho vai tentar algo diferente?” - pensei comigo, com expectativas.
O Vini comemorou com estilo, sambando respeitosamente em homenagem a uma festa típica do seu país, os portugueses ficaram com mimimi, deu aquele clássico empurra-empurra, os mais tranquilos ajudaram a separar os mais nervosos, o árbitro injustamente puniu o jogador brasileiro com cartão amarelo, a bola foi colocada no centro para a retomada da partida…
E aí de repente tudo acabou. O racismo entrou para destruir o jogo.
Na batalha por justiça que se formou no gramado, virei madrilenho na hora. Não podia torcer a favor de um criminoso.
O jogo perdeu a alma.
Visivelmente, vários jogadores do Real Madri, inclusive o Vini Júnior, não queriam mais jogar. Sem disposição, atacados no espírito e feridos no íntimo.
Um futebol morto, sem graça, com uma tensão medonha, tudo por causa de um covarde.
Revoltante e frustrante.
Além de me sentir mal por tudo o que estava vendo, como tento sempre, procurei extrair aprendizados.
Desde o momento do delito, fiquei refletindo… Na posição de treinador do Benfica, o que eu faria?
Tentei me colocar nesse cenário e imaginei eu tirando o agressor de campo. Imaginei eu confrontando ele no gramado e no vestiário. Imaginei eu exigindo sua demissão no dia seguinte. Imaginei eu sendo demitido por fazer isso. Imaginei eu respondendo uma entrevista qualquer dizendo que não compactuo com o racismo nem com qualquer espécie de violência tanto na vida quanto no futebol (como se este fosse uma dimensão paralela do universo).
Embora esteja nítido o que de fato ocorreu, alguns estão aplicando a presunção da inocência ao caso. Pois não foi possível capturar imagens claras do agressor proferindo as ofensas racistas. Numa atitude covarde, ele tampou a boca com a camisa, impossibilitando os registros incriminatórios.
Lembrei depois de Telê Santana. Tenho estudado sua biografia e documentado algumas reflexões no meu podcast (Futebol em Contexto).
Ele dizia que não aceitava jogar com violência. Queria o futebol-arte. Queria ganhar por mérito próprio.
Ele exigia um padrão elevado de conduta dos seus jogadores.
Percebi que sinto a mesma necessidade.
Se eu preciso da agressão física e psicológica para desestabilizar meu adversário a fim de conseguir superá-lo, então sou inferior a ele e não mereço a vitória.
Querer vencer sem mérito para mim é violar um princípio divino:
“Não se enganem: ninguém zomba de Deus. O que uma pessoa plantar, é isso mesmo que colherá.” - Gálatas 6:7
Tomou gol?
Respira, levanta a cabeça, foca nas suas tarefas e faça o melhor para virar o jogo.
Perdeu a partida?
Aproveite as lições, trabalhe para aperfeiçoar a performance e tente de novo.
Racismo? Demissão e denúncia na polícia.
É o mínimo que se espera de um jogador, de um treinador ou de um clube de alto nível.
Grande abraço,
Victor Butzloff