Na primeira aula de inglês do ano, a teacher me perguntou quais eram minhas resoluções para 2026. Até assustei… “É verdade, trocamos de calendário” (veja que não estou fluente a ponto de pensar direto em english). Respondi que tinha algumas ideias em mente, mas que ainda não havia passado para o papel.
Fiquei por um bom tempo depois pensando nisso. Por que precisamos de metas? Desde quando estabeleço metas para mim mesmo? E se tratando de crianças, faria sentido estipular metas?
1 - A Nostalgia das Pequenas Metas
Viajei nas minhas memórias da infância e lembrei de várias situações em que “brinquei” com metas para me motivar.
Treinando finalização no quintal de casa, o desafio era acertar a bola x vezes seguidas no ângulo do gol imaginário na parede (fazendo a curva por cima do varal de roupas).
Nas embaixadinhas, tinha que ter alguma quantidade alvo de toques sem deixar a bola cair, sempre maior do que a última vez. Até no PlayStation 1, uma meta como ser campeão da Copa do Mundo com a pior seleção do Winning Eleven (jogo de futebol) era fundamental para deixar o jogo mais interessante.
Nas peladas com os amigos e desconhecidos, só tinha graça quando havia um mínimo de equilíbrio entre os dois times. E era ainda mais divertido quando a outra equipe ficava ligeiramente superior - porque enaltecia a vitória.
Lembro de uma vez, na adolescência, brincando na quadra de um condomínio com o pessoal da escola. Não que eu fosse craque… A maioria que era ruim demais. Precisei falar “eu, fulano e sicrano contra a rapa” (um 3 x 5) para atingir uma relação de forças desafiadora. Aí sim, um baita jogo!
2 - Do Videogame à Vida Real
Essas lembranças me mostraram como a habilidade de estabelecer metas contribuiu para o meu desenvolvimento em todas as áreas. Muitos anos depois, após conhecer a mulher da minha vida, eu estaria estruturando um plano de estudos para o concurso do TJSP (queria garantir uma renda razoável para casar).
Mais alguns anos à frente, recém-casado, viria a prova do vestibular da UNESP para a segunda graduação - em Educação Física, a primeira foi em Psicologia. Além da gestão financeira de casa, leitura da Bíblia, leitura de livros e artigos, na atuação profissional como psicólogo do esporte e em seguida como professor de futebol. Metas, metas e metas. Sempre me ajudando muito!
Assim, fui me convencendo cada vez mais da importância delas. Inúmeros estudos científicos e casos práticos demonstram que o estabelecimento de metas, quando bem aplicado, favorece o aumento da performance e, por consequência, o alcance de maiores resultados. Na minha própria vida, tenho provado disso desde cedo. E em meio a essa reflexão, concluo que sim, faz bastante sentido estipular metas com as crianças.
Sou da opinião de que essa habilidade psicológica pode fazer a diferença tanto na motivação e aproveitamento durante as atividades na infância quanto no desenvolvimento a longo prazo da autoconfiança. Vou te explicar como de forma bem objetiva.
3 - Afinal, o que é uma meta?
Há vários métodos de estabelecimento de metas. Um dos mais consolidados é o SMART. A sigla em inglês refere-se aos pré-requisitos para estipular uma boa meta: Specific, Measurable, Achievable, Relevant, Time-bound. Ou seja, uma meta eficaz precisaria ser Específica, Mensurável, Atingível, Relevante e Temporal.
Embora relevantes, aqui não pretendo me aprofundar em métodos como esse. Quero me ater à essência das metas. Se você precisasse definir em poucas palavras, qual seria sua resposta? Abaixo ofereço a minha.
Meta: um objetivo menor que facilita o alcance de um objetivo maior.
O verbo “facilitar” poderia ser substituído por “motivar”. Na prática, funciona do mesmo modo. A satisfação de atingir um objetivo desafiador grande e distante é antecipada e diluída em objetivos desafiadores menores e mais próximos, mantendo a força motriz (o movere ou movimento) do comportamento.
E por que as metas podem contribuir para o desenvolvimento da autoconfiança?
4 - A autoconfiança treinada com metas
O sentimento de autoconfiança resulta de um processo de aprendizado ao longo da vida. Ninguém nasce se sentindo super capaz em determinada atividade. São os pequenos passos, acertos e conquistas que fundamentam uma crença estável no próprio potencial. Ou seja, é ter na memória evidências da sua competência, uma coleção de pequenas vitórias reais.
Uma das principais diferenças entre crianças (ou adultos) com autoconfiança e crianças sem autoconfiança está no quanto a família e pessoas relevantes ao redor intencionalmente incentivaram e valorizaram a concretização de tarefas desafiadoras consistentemente.
Uma criança que frequentemente cumpre desafios ajustados às suas possibilidades, e percebe/sente a recompensa de os atingir, está aprendendo a identificar o poder de seus comportamentos. Em outra palavras, está aprendendo a confiar nas suas ações. Adicionalmente, também está se preparando para cumprir objetivos maiores, estruturados em metas cada vez mais elaboradas.
O que nomeamos como “autoconfiança” envolve um padrão de comportamentos funcionais e adaptativos diante de situações adversas em variados contextos da vida.
Conseguir falar em público na escola ou no trabalho, incentivar o time na preleção, chegar na pessoa que gosta, desbravar um local desconhecido, manter uma rotina de preparação para melhorar o rendimento acadêmico ou esportivo, acreditar no próprio potencial, enfrentar os desafios, crer que é possível aperfeiçoar.
Tudo isso está relacionado com o grau de confiança no resultado das ações realizadas por si mesmo. Como qualquer habilidade, a autoconfiança é treinável. Assim como a motivação e o estabelecimento de metas.
Para incentivar o desenvolvimento dessas habilidades desde a infância, basta seguir alguns princípios básicos:
- Priorize atividades em que a criança demonstre interesse;
- Junto com a criança, estabeleça pequenos desafios, conforme suas possibilidades atuais;
- Valorize e recompense a aprendizagem, ressaltando que a criança conseguiu superar a si mesma;
- Seja consistente, complexificando os objetivos gradativamente;
- Deixe a criança ser criança.
Todo jogo e brincadeira carrega intrinsicamente um caráter desafiador. Portanto, “ser criança” naturalmente inclui o desejo por superar desafios (como pular uma poça d'água ou subir numa árvore), e não apenas brincar sem rumo. Na infância e pré-adolescência, a meta deve ser lúdica - e não um compromisso profissional.
Grande abraço,
Victor Butzloff